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Casal ‘adota’ 70 crianças e reduz a fome em Monte Carmelo

alimento MONTE CARMELO - “É uma coisa inexplicável. Me dá até arrepios quando eu falo, mas dá para sentir aqui que eles são meus filhos”, conta o administrador Osvaldo Antônio da Silva, 47, enquanto aponta para o próprio coração. Ele e a mulher, Vera Lúcia da Silva, 55, não conseguiram ter filhos biológicos, mas encontraram outro modo de “dar à luz” em Monte Carmelo: pela solidariedade. A vontade de ajudar indicou o caminho até as 70 crianças que hoje eles acolhem, amam e educam.

O primeiro vínculo afetivo entre pais e filhos surgiu com a fome. Há 24 anos, pouco depois de se casarem, era a hora do almoço na casa de Vera e Osvaldo, no bairro São Sebastião, um dos mais pobres da cidade – condição que permanece até hoje. Antes de se servirem, no entanto, receberam um chamado na porta. Eram três meninos de cerca de 7 anos, que tinham em comum os corpos franzinos e muita fome. Vera resolveu dividir o pouco que tinha na panela com os pequenos, comprometendo o almoço do marido. “Mas não tinha problema, eu inteirei o que sobrou com farinha para comer antes de trabalhar”, lembra Osvaldo, que, à época, era contratado em uma indústria de cerâmica. Mal havia acabado de limpar o prato, recebeu a visita de outra criança que, com a mão na barriga miúda, também pedia comida.

“Eu disse que tinha acabado a comida e mostrei a panela vazia. Aí, aquele menino sentou no chão com as mãozinhas no rosto e começou a chorar de fome. E eu chorei junto, de desespero. O aperto no peito que senti naquele momento eu não desejo para ninguém. Por isso eu prometi naquele dia que nunca mais ia deixar outra criança com fome”, relata, mostrando que o peito apertado havia acabado de transformá-lo em pai.

A providência inicial foi trocar a panela por uma maior. “Como éramos só eu e a Vera, a gente tinha apenas uma panelinha pequena. No outro dia, as crianças voltaram e almoçaram conosco. No dia seguinte, vieram mais crianças, e, no outro, ainda mais. E, assim, o que era quatro virou sete, depois dez, 15. Hoje são 70”, orgulha-se. E eles sabem os nomes de todos.

Todas as crianças assistidas pelo casal são de famílias vulneráveis social e financeiramente, moradoras do bairro São Sebastião, que carece de infraestrutura – só agora, terá uma unidade de saúde. O almoço servido por Vera e Osvaldo é, para muitas delas, a única refeição do dia, mas a atenção e o carinho que recebem ali têm efeito permanente. Ao chegarem à sede da Associação Luta Pela Vida (ALPV), inaugurada em dezembro passado para formalizar o trabalho do casal, as crianças, que têm principalmente entre 3 e 11 anos, pedem a bênção de Vera e de ‘Valdo’, como o chamam. Eles se tornaram a referência de família e de valores para a meninada.

Rotina. O almoço que muitas vezes faz o papel de café da manhã é servido às 10h, mas desde 8h, quando Vera começa a prepará-lo, já é possível encontrar crianças sentadas à mesa. A ansiedade pelo prato de comida (arroz, feijão, uma carne e três tipos de vegetais, além do suco e uma banana) é visível nas mãozinhas que seguram o copo vazio sobre a mesa, nos olhares curiosos em direção à cozinha. Enquanto o almoço não sai, os pequenos aproveitam o tempo “fazendo bagunça” em frente à associação, brincando, correndo e pulando – sendo crianças e deixando de lado a aridez do dia a dia. Vera começa a cozinhar todos os dias na ALPV às 8h, e o cheirinho da comida desperta as crianças do bairro.

Como ajudar

. O custo da ALPV é de pelo menos R$ 22 mil por mês, só com a alimentação das crianças. “Nosso maior problema é o vegetal, que não dá para estocar, diferente do arroz e do feijão. Além disso, o meu sonho é poder servir uma refeição às 17h, para as crianças não irem dormir com a barriguinha vazia, mas isso ainda não é possível”, diz Osvaldo.

O Tempo/Divulgação